Entrevista: Coluna "Quem foi?" - Jornal A União 14/06/2026


Gabmar Cavalcanti Albuquerque

Músico demonstrava o talento na ponta dos dedos


EDIÇÃO: Audaci Junior
EDITORAÇÃO: Lucas Nóbrega

Tem gente que olha, mas não vê. E tem gente que, mesmo sem enxergar com os olhos, dedilha a realidade como quem tudo pudesse ver. Foi assim que o músico campinense Gabmar Cavalcanti Albuquerque construiu sua trajetória: com as mãos sobre os instrumentos e os ouvidos atentos aos sons do rádio, dos bailes e da própria cidade, de onde nunca quis sair, nem mesmo para “fazer carreira” pelo Brasil.


Autodidata, o paraibano enveredou pela sanfona, piano, violão, guitarra e até bateria; trabalhou em vários veículos de comunicação, como a Rádio Borborema, a Rádio Caturité e a TV Borborema

Nascido em Campina Grande, em 17 de julho de 1943, Gabmar ficou cego aos três anos de idade, após um glaucoma que o levou à retirada do globo ocular. A partir daí, acabou desenvolvendo uma espécie de superpoder: o ouvido absoluto. O filho, Alisson Teles Cavalcanti, explica que ele reconhecia uma nota sem precisar procurá-la no teclado. “Ele tinha a escala musical na cabeça”,conta.Foicomessaescutafora do comum que o menino cresceu cercado pela música, entre o bandolim da mãe, o piano da irmã Alba e a “sanfoninha de papelão” que ganhou do pai, feita para brincar.

Autodidata, ele aprendeu a tocar em casa, enquanto acompanhava a irmã nas aulas de piano. “Eu me deitava no sofá e escutava as ditas músicas. Quando ela saía do instrumento, eu tentava reproduzir, em parte, aquilo que havia acabado de ouvir”, relembrou Gabmar, em entrevista ao site Ritmo Melodia, anos antes de morrer. Não à toa, ele resumia sua formação musical como “essencialmente prática”, construída pela observação e pela escuta atenta.


Descobertas pelo som


Como lembra a viúva, a cantora Kátia Virgínia, o músico sempre foi muito curioso e traquino, mesmo depois da cirurgia. Aliás, a deficiência visual nunca o impediu de aprender. “Ele gostava de brincar com as ferramentas do pai. Então, ele se deitava na rede, fingindo que estava dormindo, e colocava essas ferramentas em cima do peito. E ficava lá, desmanchando as coisas e descobrindo outras mais”, conta.

Décadas depois, essa mesma curiosidade apareceria em tudo o que envolvesse som: na mesa que ele regulava habilmente sem ver os botões, nas fitas de rolo que cortava e emendava, e no radioamadorismo, seu hobby mais querido, pelo qual se comunicava com gente de toda parte. Alisson Teles Cavalcanti costuma comparar isso a uma espécie de WhatsApp ou Instagram da época. Mas era na música que Gabmar mais brilhava: da sanfona, chegou ao piano; depois, ao violão e à guitarra. O filho conta que até bateria ele tocava um pouco. “Era o universo dele”, resume Alisson.

Ainda menino, com apenas 11 anos, ele chegou a vencer uma audição do Prêmio Esso Standard do Brasil com a música instrumental “Sonhando”, composta por ele e executada na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. A família ainda guarda registros desse período. Em uma gravação recuperada por Alisson, feita pouco depois, na Rádio Clube de Pernambuco, a voz de criança de Gabmar aparece dizendo que aquele era o momento mais feliz de sua vida. “Na época, tocar na Rádio Nacional equivalia, sem exagero, a ir para a Rede Globo”, compara.

Mas foi em Campina Grande que a carreira começou de fato. Em 1960, aos 17 anos, assumiu o posto de pianista da Rádio Borborema. Também trabalhou na Rádio Caturité e na TV Borborema, em um tempo em que programas e números musicais aconteciam sempre ao vivo. Segundo Kátia Virgínia, na rádio, além de músico, ele também produzia a sonoplastia de radionovelas. “Fazia os efeitos de chuva e até de cavalinho”, detalha.

Segundo Kátia, a afinidade entre os dois dispensava explicações. “Quando tocávamos juntos, eu sentia uma conexão enorme, tanto que ele sabia o que eu ia fazer, sem dizer nada. A gente se entendia assim”, conta. Era como se, no palco, um completasse o que faltava no outro. Kátia era a voz; Gabmar, as mãos. Ele brincava que tinha uma “voz de esmeril” e, por isso, não cantava. Ela, por sua vez, nunca virou instrumentista. Em entrevista à coluna Xeque-Mate, publicada no Jornal da Paraíba, em 1997, ele disse que “estava tão acostumado ao jeito de Kátia cantar que os dois quase adivinhavam o que o outro faria”.

Ele escolheu ficar


Mesmo tendo recebido convites e elogios de artistas conhecidos, Gabmar nunca quis deixar Campina Grande. Kátia lembra que nomes como Altemar Dutra e Elba Ramalho gostavam da companhia dele e chegaram a incentivá-lo a tentar caminhos diferentes, fora da Paraíba. A resposta, segundo ela, era sempre parecida: ele não queria sair da cidade. Na mesma entrevista, Gabmar afirmou que “preferia assim”.

Em 2007, a ligação da família com Campina Grande chegou ao auge com a nova versão do hino da cidade, interpretada por Kátia Virgínia e com arranjos de Gabmar. Segundo o filho do casal, a música ficou tão popular que passou a ser executada diariamente na Rádio Campina FM. Apesar disso, eles sentem que Gabmar poderia ser mais lembrado. Kátia diz que não fala de bajulação, mas de reconhecimento. Alisson concorda. Para ele, o pai não era uma “figura de frente”, dessas que ocupam o centro do palco. Era alguém de bastidor. Tocou em eventos, abriu shows, acompanhou artistas, produziu músicos locais e ajudou a construir carreiras. “Ele foi um cara que estava presente na vida da cidade por muito tempo”, define.

Foi também, nesse período, que o multi-instrumentista passou a integrar o Conjunto Ogírio Cavalcanti, criado pelo irmão Ogírio. No grupo, animou bailes de debutantes, carnavais, São João e eventos sociais por mais de três décadas, inclusive em outras cidades do Nordeste. Como detalha Alisson, durante muito tempo, o pai também foi responsável pela regulagem do som e pelos teclados. “Tocava com uma mão e, com a outra, ajustava a mesa de áudio ao lado do palco”, revela o filho. A imagem é quase inacreditável, como se Gabmar enxergasse com os dedos.

Kátia era a voz; Gabmar, as mãos


Foi nesse ambiente musical que Kátia Virgínia entrou na vida dele. Ainda jovem, ela cantava em programas, participava de concursos e, depois de uma apresentação, acabou sendo convidada a integrar o grupo, na década de 1970. Não demorou muito para que a convivência nos ensaios, nas viagens e nos palcos aproximasse os dois. A amizade virou namoro e, em 16 de maio de 1975, veio o casamento, o início de uma parceria de quase cinco décadas que teve como frutos os filhos Alisson, Sheyla e Shirley.

Multi-instrumentista numa das apresentações com a esposa, a cantora Kátia Virgínia

A discrição talvez explique o motivo pelo qual parte dessa memória ainda está incompleta. Gabmar Cavalcanti Albuquerque não era vaidoso. Quando elogiado por artistas de fora da Paraíba, não se deslumbrava. Preferia a vida em Campina. Após a morte, na noite de 1º de maio de 2016, aos 72 anos de idade, teve o nome eternizado em uma rua da cidade. Mas, para a família, merecia muito mais. O câncer apareceu em 2015, depois de sintomas que ele, inicialmente, não levou tão a sério, como detalha Kátia. Uma crise de dor, confundida com apendicite, o levou a uma cirurgia de emergência. Foi, então, que a família soube da existência de um tumor.

No último ano, o músico ainda tentou tocar, mas nem sempre tinha a paciência necessária. E, quando já não dava mais, continuava ligado ao rádio. Já no hospital, Alisson Teles colocava músicas no celular para o pai ouvir, até que, no último momento, o aparelho “apagou de repente”. “Parecia que ele tinha deixado tudo programado”, lembra Kátia Virgínia.

Apesar da dor da despedida, os dois seguem mantendo vivo esse legado: ela nos palcos e ele na preservação das memórias do pai, um campinense que transformou em música aquilo que seus olhos não conseguiam ver. O acervo da família está disponível no site Casa de Gabi (www.casadegabi.com.br).