Entrevista: Coluna Xeque-Mate, 09/02/1997
A Casa de Gabi apresenta uma entrevista de Gabmar Cavalcanti e Kátia Virgínia à jornalista Ana Lúcia Monteiro para a coluna "Xeque-Mate", publicada na página 6 do Jornal da Paraíba de domingo, 09 de fevereiro de 1997.
GABMAR CAVALCANTI E KÁTIA VIRGÍNIA
"Suei sangue para aprender a manusear o teclado"
Gabmar Cavalcanti, 53, e Kátia Virgínia, 45, são sinônimos de sucesso aonde quer que se apresentem, pois trazem a música nas veias. Casados há 22 anos, descobriram-se encantados um com o outro na década de 70 e desde aquela época formaram um par romântico que anima e faz dançar milhares de pessoas. A participação da dupla em festivais já rendeu diversas premiações e as lembranças da vida musical, na ativa em sua totalidade, somam-se ao sucesso conquistado por eles. A deficiência visual de Gaby, como o chama Kátia, que sempre sonhou ser maestro, não impediu que esse músico descobrisse os segredos dos teclados, embora ele lamente que os fabricantes não pensem nas pessoas como ele, que têm de "suar sangue" para poder manuseá-los. Atualmente, além de shows, os dois estão envolvidos com o Solo Studio, montado em sua residência, que dispõe de 16 canais e equipamentos dos mais sofisticados, aonde já passaram vários cantores da terra.
Por Ana Lúcia Monteiro
Até que ponto a deficiência visual do músico Gabmar Cavalcante foi empecilho na carreira de vocês?
G - Não, não foi empecilho. Talvez, só na minha carreira, porque eu pretendia estudar, ser um maestro, esse sempre foi o meu sonho. No mais, não houve grandes empecilhos na nossa carreira.
Como nasceu essa interação, ao ponto de chegarem ao casamento?
G - Eu a conheci num concurso que houve aqui - A Mais Bela Voz do Nordeste -, eu deveria acompanhá-la, mas não pude. Tempos depois, Kátia entrou no conjunto de Ogírio.
K - O início mesmo foi quando eu tive de ensaiar com ele, pois ele acompanhou o pessoal que participou do concurso; nós fomos até João Pessoa, depois até o Recife (ele não foi). Esse foi o começo e, de 70 para cá, nos encantamos um com o outro, era o amor.
A vocação musical de vocês é procedente de algum antepassado, ou os dois nasceram para brilhar nas festas serranas?
G - Minha mãe tocava bandolim. A mãe de Kátia canta e 'seu' Teles (meu sogro) toca violão. A descendência musical dela é bem maior que a minha.
K - Lá em casa todos lidam com música. Somos em número de oito.
Qual a sensação de ser acompanhada por seu marido quando você pisa num palco para interpretar?
K - Eu já cantei com outras pessoas, mas com ele é diferente. É uma emoção muito maior.
Os caminhos para se chegar ao sucesso são árduos. Vocês acreditam que essa barreira já foi superada?
G - Em nível local já, pois aqui não tem problema não. Agora, em termos nacionais, é que é problema. Aqui, nós temos um certo prestígio, graças a Deus, porém em nível nacional é mais complicado. Mas, eu prefiro assim, do jeito que está.
K - A gente tentou, inclusive, j saiu, mas a gente percebeu o quant é necessário aprender mais, para conseguir concorrer com os outros lá fora.
Qual a receptividade do público campinense em relação à dupla Gabmar/Kátia?
G - Ah! É maravilhosa. Aqui o público é muito bom.
K - Graças a Deus, a gente tem, assim... recebido uma receptividade muito boa, excelente. A gente não tem de que reclamar. Por onde a gente andou, desde a época da banda.
G - A banda eu deixei porque estava cansado de viajar, dar baile, é muito cansativo. Nós estamos com um estúdio aqui, e eu prefiro ficar e casa. Mas, vez por outra, quando ele (Ogírio) precisa de mim, eu vou.
K - Também, a partir de 92, nó começamos a participar de festivais e aí tivemos que olhar mais para o nosso lado.
Algum disco lançado ou previsão de um a curto prazo?
G - Temos planos de lançar um curto prazo. Há um projeto nesse sentido.
K - Aliás, temos algumas músicas já prontas. Recebemos um incentivo muito grande por parte dos amigos, da imprensa, que sempre está cobrando alguma coisa da gente, e também há uma pessoa que é muito importante nesse ponto - o Fábio Dantas -, inclusive ele esteve aqui em dezembro e disse que havia alguém interessado em nos patrocinar; isso ainda está em estudo.
Fala-me de suas participações em discos de outros cantores. Até que ponto isso é favorável à carreira de vocês?
G - É interessante, até pelo fato da experiência, porque cada vez que a gente faz um trabalho diferente, a gente adquire experiência. E temos trabalhado bastante com artistas locais, como Coroné Grilho (Oscar Neto); Tan, eu fiz os arranjos e Kátia os vocais; bandas Efan e Palov, ela fez os vocais; Tadeu Matias, e de outras cidades.
K - No estúdio, nós trabalhamos também com jingles e vinhetas. Fizemos para João Pessoa, Presidente Prudente (SP) e Gaby tem trabalhado, também, nos discos do pessoal de Presidente Prudente. Ele fez um trabalho do grupo Chorus, que é um coro que canta em casamentos e outras solenidades, que lançou um CD, no qual os arranjos e gravações são de Gabmar, feitos num estúdio daquela cidade. Gaby fez também o disco de Chico Sousa, médico campinense mas que mora em Prudente; de Felinto Show, que é um disco para criança, de SP; de uma dupla - Dinaldo e Dorival - lá de São Paulo, etc.
Quando eventualmente vocês cantam e/ou tocam separadamente que tipo de sensação ocorre?
K - Ah! É estranho, eu não me acostumo. Também, são 27 anos que a gente trabalha junto, desde 70, quando entrei na banda, já foi com Gaby, até hoje. Então, mesmo que eu cante com outra pessoa - mesmo sentindo muita confiança -, eu sinto muita falta dele. Não me acostumo, é bem difícil. Já cantei com muita gente me acompanhando, e sempre é uma emoção diferente.
G - Risos... É duro, viu! não é desfazendo dos cantores, há excelentes cantores aqui, e por aí afora; entretanto, com ela é diferente, a gente não sabe nem dizer. Estou acostumado a escutar o jeito dela cantar e a gente até adivinha o que o outro vai fazer.
O estúdio está montado. O que ele oferece aos artistas da terra e de outras cidades?
K - Bom, nós temos 16 canais e pretendemos estendê-lo - antes do meio do ano - até 24 canais digitais, e todo equipamento de um bom estúdio nós temos aqui; temos boa vontade e trabalho.
Recursos investidos. O retorno está garantido ou é um empreendimento de grandes riscos?
G - Não, o retorno deve estar garantido, eu creio que sim. Há riscos, porque em todo negócio que você entra há riscos, mas existe campo e dá para você ir fazendo. Quanto aos investimentos, foram da ordem de 18 mil reais, inicialmente.
K - Após uma ampla discussão chegamos ao nome do estúdio: Solo Stúdio, e temos o Gaby à frente dos arranjos, da produção, e nosso filho mais velho - Alisson Teles Cavalcanti - que montou todo o estúdio, ele é muito curioso, inteligente, mexe com computação, teclados e faz arranjos também, como para João Oliveira, seu mais novo trabalho tem arranjos dele. Álisson faz a parte de mixagem, parte técnica, juntamente com Gaby, e eu faço os vocais, assim como meus irmãos.
Em termos de gêneros musicais vocês também têm afinidades?
G - Ah! sim, ela gosta exatamente dos gêneros que eu gosto. Boa música, MPB, internacionais; músicas feitas aqui, há excelentes. Nós não temos preconceito com nenhum estilo. Tanto faz forró como música erudita... desde que sejam bem feitas. Gostamos do que é bom, embora tenhamos que cantar e/ou tocar as músicas que fazem sucesso, aquelas que as pessoas gostam de ouvir.
Qual a dificuldade adicional que o deficiente visual enfrenta para aprender a tocar?
G - Bom. Primeiro, se ele quiser estudar é o problema de livros em braile, que há poucos, muitos poucos, só existem em São Paulo e no Rio, e a dificuldade é grande; segundo, se ele quiser aprender um instrumento, no caso dos teclados, muito em voga hoje em dia, que são feitos para as pessoas que vêem. Os fabricantes não imaginam que alguém que não vê toca teclado, então os comandos dos teclados, praticamente, são visuais, e para você aprender a mexer num teclado daquele precisa suar sangue (risos) e é preciso ter um certo tirocínio de linguagem de computação para mexer naquilo ali. Então, essa é uma das dificuldades que a gente encontra, enfrenta. Agora, para tocar piano não. Mas, como está meio difícil você sair e levar um piano nas costas, então se aprende teclado, enfrentando essas dificuldades, pois as fábricas não imaginam que as pessoas que não enxergam toquem.
- Como você conseguiu superar essas dificuldades?
G - Eu comecei com piano, né? Eu sou um pouquinho mais velho que o teclado. Quando o teclado apareceu era mais simples, foi se sofisticando e tal... Como eu gosto muito de eletrônica, não tive grandes dificuldades em aprender. Mas, quem não gosta de eletrônica, para tocar teclado é uma coisa muito difícil, não sei como consegue.
K - Eu quero colocar que agora ele está às voltas com o computador, mexendo, descobrindo..., com a ajuda do Álisson.
Qual o prazer que dá imaginar que pessoas estão cantando ou dançando as músicas que vocês executam?
G - É um prazer muito grande, a gente sente quando está agradando, e tem sempre alguém de olho na platéia para ver a resposta do público.
K - Como agora estamos só eu e ele, a gente nunca segue um repertório montado. Quando a gente percebe que envolve mais as pessoas em determinados estilos, permanece um pouco mais, caso contrário mudamos o ritmo musical. Recebemos muitos bilhetinhos incentivando, sugerindo músicas, tudo isso é muito gratificante.
Quais as bandas que já gravaram no Solo Stúdio?
G - Estou preparando o disco da Ogírio Cavalcanti que estará pronto o mais rápido possível, para que possa ser vendido; a prensagem fica em torno de R$ 2.500,00; o estúdio é alugado por hora, além dos arranjos, quando eu os faço é cobrada certa quantia por cada um deles.
K - Vale salientar, que fica bem mais interessante - em termos financeiros - porque contratar uma banda inteira ficaria muito caro, e ao passo que fazendo tudo programado. se coloca, em sua maioria, todos os instrumentos e alguns por fora, como, sanfona, percussão, etc.
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Esta entrevista foi publicada na Casa de Gabi, uma página dedicada à divulgação do acervo audiovisual do músico Gabmar Cavalcanti. Acesse o Projeto em https://www.casadegabi.com.br